Trabalho voluntário, uma vantagem competitiva no mercado de trabalho

Um importante dirigente do Terceiro Setor costuma dizer que o trabalho voluntário faz bem para a pele, o coração e a alma. Mas o que ele e muita gente ainda não sabe é que, além dos benefícios estéticos, cardíacos e espirituais, o voluntariado começa a contar pontos também no campo profissional. Especialmente entre jovens em início de carreira, à procura de estágio ou de olho em uma dessas cobiçadas posições de trainee pelas quais enfrentam maratonas de testes e entrevistas.

O que antes era uma atividade de gratificação íntima, quase existencial, transformou-se em diferencial no mercado de trabalho cada vez mais valorizado por empregadores. Irônica e paradoxalmente, ser cooperativo tornou-se uma vantagem competitiva. Quanto mais incorporam práticas de responsabilidade social, mais as empresas desejam ter em seus times gente de valor e de valores, competente, mas íntegra, competitiva, porém ética.

Antes que essa visão soe excessivamente ingênua para os mais céticos, algo fantasiosa para os incrédulos, convém esclarecer logo de partida: não, as empresas não deixaram de ser pragmáticas nem ficaram mais maternais nesses tempos de globalização, forte concorrência, clientes voláteis e serviços cada vez mais comoditizados. Para vencer os desafios de seus mercados, continuam procurando jovens talentosos, proativos, flexíveis, ágeis e fortemente orientados para resultados.

O que parece ter mudado é a noção de que, na sociedade do conhecimento em que vivemos, esse repertório de atributos não vem pronto dos bancos universitários. Constitui bagagem pessoal e não profissional. É pertinente à dimensão do humano e não à do tecnológico. Não surpreende, portanto, sob o ponto de vista estritamente pragmático das empresas, que ser voluntário sirva como critério de desempate em um processo de seleção.

Experimente calçar, por um minuto, os sapatos de um recrutador: se você tivesse de escolher entre dois candidatos rigorosamente iguais, com a mesma formação, o mesmíssimo histórico escolar, certamente preferiria aquele que fez ou faz trabalho voluntário. Não porque ele seja puro de coração num mundo de matrix desalmados. Mas por razões bastante objetivas. Primeiro, a mais óbvia, embora nem sempre tão lembrada: alguém que se dispõe a doar tempo e conhecimento para uma organização social aprende desde cedo a servir, a colocar-se no lugar do outro e identificar suas necessidades, a exercitar o mais solidário de todos os atos que é ouvir. Saber servir, com gosto e não por obrigação, é algo que pode fazer enorme diferença especialmente no mercado de serviços, o maior empregador do País.

Uma segunda razão, nem por isso menos importante: voluntários são, por natureza, indivíduos que trabalham para causas, colocam uma boa parte deles próprios – o coração e não só a cabeça - na atividade que exercem e, por esse motivo, estão mais dispostos a “vestir a camisa” quando enxergam na empresa uma legítima extensão de suas vidas. É justamente esta “paixão pelo que se faz”, segundo Peter Drucker, um dos principais ensinamentos que o Terceiro tem para o Segundo Setor.

Como lidam com a escassez de recursos típica da área social, os jovens voluntários aprendem a buscar soluções mais criativas, a extrair leite de pedra e transformar pedras brutas em diamantes. Como são normalmente auto-motivados, tendem a sentir mais prazer no trabalho, mesmo diante de dificuldades e obstáculos.

Como gostam do contato com pessoas – e, a rigor, um dos sentidos do seu trabalho é melhorar a vida delas - desenvolvem forte capacidade de liderança, assertividade e relacionamento interpessoal, mas também e, principalmente, um espírito de cidadania acima da média. “Na hipótese de uma situação de empate, a postura cidadã contará pontos, representando um diferencial competitivo”, afirmou à revista Exame Adriana Chaves, gerente de recrutamento e seleção corporativa da Unilever. “Habilidades de cidadania são intrínsecas a um bom líder”, reforçou, na mesma reportagem do Painel Executivo, Clever Bretas, gerente geral de administração de RH da Companhia Vale do Rio Doce. Ser socialmente responsável está, definitivamente, na moda.

Uma terceira razão, para fechar o arsenal de argumentos a favor do voluntariado como dínamo de carreiras: um bom líder deve ser, acima de tudo, um cidadão pleno, consciente de suas responsabilidades e disposto a mudar, com a sua ação, tudo à volta, a começar pela própria comunidade. O protótipo do executivo bem-sucedido dos anos 80, o yuppie individualista por temperamento e agressivo por influência do meio, é uma figura do passado, resíduo arqueológico de um tempo em que prevalecia a máxima do “subir na vida a qualquer custo”.

Daqui por diante, vai se destacar o profissional solidário, coletivista e com gosto por servir o outro, alguém cujo espírito pode muito bem ser sintetizado no laboratório das práticas de voluntariado. Se você fosse uma empresa ia querer contar com ele em seu time, não ia?

Fonte: Ricardo Voltolini, TV Cultura

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